Meses após a operação mais letal da história do estado, o Rio enfrenta desafios persistentes e o tema domina a corrida eleitoral de 2026.
Nenhum assunto mexe tanto com o cotidiano carioca quanto a segurança pública. Seja para quem mora nas comunidades diretamente afetadas por operações policiais, seja para quem sente o impacto no trânsito, no transporte ou na rotina de trabalho, o tema é impossível de ignorar. Uma megaoperação policial realizada nos complexos da Penha e do Alemão resultou em 64 mortes, tornando-se a ação mais letal da história do estado. Entre as vítimas fatais estavam quatro policiais, além de dezenas de supostos integrantes do Comando Vermelho. Meses depois, os ecos do episódio ainda reverberam no debate público fluminense e moldam a agenda dos candidatos ao governo estadual. CNN Brasil
Entender o que aconteceu, o que se seguiu e quais são as perspectivas para a segurança no Rio é a dúvida que permanece na cabeça de moradores e observadores. A Operação Contenção não terminou com aquele episódio: ela continuou com novas fases nos meses seguintes, reacendendo o debate sobre eficácia, legalidade e custo humano das grandes operações policiais.
A Operação Contenção e seus desdobramentos
Após o episódio mais intenso, as ações policiais seguiram em ritmo constante. Em 15 de janeiro de 2026, agentes das Polícias Civil e Militar deflagraram mais uma fase da Operação Contenção e prenderam oito suspeitos, incluindo dois em flagrante, ligados à facção Comando Vermelho. Em 4 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil e o Ministério Público estadual prenderam 13 pessoas do Comando Vermelho durante mais uma fase da operação, contra o avanço territorial da organização criminosa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Wikipedia
A operação também gerou repercussão internacional. Em 6 de março de 2026, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ligada à Organização dos Estados Americanos, classificou a megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão como a mais letal da história recente do Brasil. O reconhecimento da CIDH abriu um flanco de pressão diplomática sobre o governo do estado e alimentou o debate no Ministério Público Federal e na Defensoria Pública da União sobre o cumprimento da ADPF das Favelas, decisão do STF que estabelece condições para operações em comunidades. Wikipedia
Do ponto de vista político, a receptividade popular foi significativa. De acordo com o instituto Paraná Pesquisas, 69,9% dos moradores da capital fluminense aprovaram a operação. Esse dado revela uma tensão real: parte expressiva da população, exausta com décadas de violência e domínio do crime organizado, vê nas grandes operações uma resposta necessária; outra parte, especialmente moradores das comunidades afetadas e organizações de defesa dos direitos humanos, questiona o custo humano e a eficácia de longo prazo dessas ações. Wikipedia
Segurança pública como pauta central das eleições de 2026
A operação nos complexos da Penha e do Alemão não ficou restrita às páginas policiais: ela entrou de vez no debate eleitoral. Operações policiais em larga escala se mostram um poderoso instrumento eleitoral. O Rio de Janeiro trouxe um exemplo concreto: a operação contra o Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha ocupou os trending topics do X ao longo da semana. Candidatos de diferentes espectros precisaram se posicionar, e a segurança passou a ser uma das pautas mais disputadas da corrida ao Palácio Guanabara. Congresso em Foco
Ao mesmo tempo, a dimensão do confronto levantou debates sobre a natureza das operações policiais no Rio de Janeiro, com especialistas caracterizando a situação como um conflito armado não internacional, dada a intensidade dos confrontos e o poder bélico das organizações criminosas envolvidas. Essa caracterização, se levada a sério pelos formuladores de políticas, implicaria uma abordagem diferente da atual, com mais coordenação federal, investimento em inteligência e atenção às raízes socioeconômicas da violência. CNN Brasil
Em fevereiro de 2026, a Polícia Militar também realizou operação no Complexo da Maré. A ação contou com cerca de 200 policiais militares e dez veículos blindados, com o objetivo de coibir o tráfico de drogas, combater o roubo de veículos e de cargas, além de prender criminosos. A sequência de operações em diferentes comunidades da zona norte e da Baixada indica que o estado adotou uma estratégia de pressão contínua sobre as principais facções. Agência Brasil
O que os cariocas esperam do futuro
A questão que fica é: operações policiais de impacto resolvem, de fato, o problema da segurança no Rio? Especialistas em segurança pública destacam que ações de repressão são necessárias, mas insuficientes quando não acompanhadas de investimento em presença do Estado nas comunidades, melhoria das condições de vida e reestruturação do sistema prisional. A rotatividade das lideranças criminosas, rapidamente substituídas após operações, é um indicador de que apenas a força não rompe o ciclo de violência.
Para o carioca que vive esse cenário no dia a dia, as demandas são concretas: poder usar o transporte público sem medo, trabalhar sem interrupções causadas por conflitos, e viver em comunidades com acesso real a serviços de saúde, educação e lazer. A segurança pública, portanto, é uma pauta que conecta diretamente o cotidiano das pessoas às decisões tomadas nos gabinetes. Com as eleições de outubro se aproximando, os candidatos ao governo do estado têm a oportunidade, e a obrigação, de apresentar propostas concretas que vão além do discurso. O eleitor fluminense está, mais do que nunca, atento.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

